Os moradores do «corredor do cancro» da África do Sul enfrentam nova ameaça do desenvolvimento portuário

ODM: Prémio Ambiental Goldman 2014: South Durban Community Environmental Alliance, Desmond D'Sa
Desmond D'Sa, cofundador da South Durban Community Environmental Alliance, laureado com o prémio Goldman de 2014. Fotografia: Jenny Bates para o Guardian

Os cheiros que se infiltram no gabinete acanhado da South Durban Community Environmental Alliance vão do adocicado e enjoativo ao que revolve o estômago. Os voluntários e outras pessoas que trabalham com este pequeno grupo conseguem ver instalações de petróleo e gás, refinarias, aterros, fábricas agroquímicas, estaleiros navais, fábricas de papel e um porto em enorme expansão.
«Temos níveis de poluição do ar que seriam inaceitáveis nos EUA ou em qualquer parte do mundo rico. Quase 70% de toda a indústria da África do Sul está concentrada aqui. Cheira mal», diz Desmond D'Sa, que cofundou em 1995 esta coligação de grupos ambientais, comunitários e religiosos e que esta semana venceu um prémio Goldman, a mais valiosa (175 000 dólares) distinção internacional para o trabalho ambiental de base.
D'Sa refere-se não só aos cheiros que pairam sobre o sul de Durban, mas também às 300 000 pessoas, entre as quais algumas das mais marginalizadas da África do Sul, que têm de viver lado a lado com mais de 300 instalações industriais. Muitas, como a própria família de D'Sa, foram para ali deslocadas à força nos tempos do apartheid.
«Eu tinha 15 anos e vivíamos em Cato Manor, a maior comunidade de gente mestiça da África do Sul. Era um lugar muito radical na era do apartheid. Mas os meus pais foram brutalmente obrigados a mudar-se pelo exército e pelas forças de segurança. Puseram-nos num camião, deitaram a nossa casa abaixo com um bulldozer e, de repente, uma família de 13 pessoas teve de viver em quatro divisões, num dos lugares mais poluídos de África.»
A injustiça racial e a injustiça ambiental andavam de mãos dadas, diz ele. «Havia chaminés por todo o lado, fábricas químicas, emissões. Sufocávamos. Começámos a perceber que algo estava muito errado.»
Na década de 1980, o sul de Durban tinha ficado conhecido como «beco do cancro» e capital tóxica de África, com as taxas mais elevadas de cancro e asma do continente. Mais de 100 chaminés expeliam anualmente mais de 50 milhões de kg de dióxido de enxofre, as crianças das escolas locais tinham três vezes mais doenças respiratórias do que as que viviam fora da zona e quase toda a gente sofria de afeções e doenças de pele.
A zona continua massivamente poluída, diz ele, com incêndios químicos regulares e inumeráveis fugas nos oleodutos e gasodutos que atravessam as comunidades.
«A leucemia é ali 24 vezes superior ao normal. A minha mãe esteve doente durante anos. O meu irmão morreu de cancro, a minha filha tem asma. Onze das 12 famílias do bloco municipal onde vivo têm asma. Em cada bloco, cerca de 50% das pessoas têm problemas respiratórios. Ainda olho pela minha janela e vejo refinarias. Sou uma vítima como qualquer outra. Pagamos o preço», diz ele.
ODM: Prémio Ambiental Goldman 2014: Desmond D'Sa, South Durban Community Environmental Alliance. As campanhas no sul de Durban obrigaram o governo a introduzir normas de poluição do ar. Fotografia: Rajesh Jantilal/AFP/Getty
Talvez por causa do ambiente físico sombrio, Cato Manor e depois o sul de Durban, para onde as pessoas foram despejadas, tornaram-se um extraordinário foco de resistência política à injustiça social e ambiental. A apenas algumas ruas de distância viviam o ativista dos direitos humanos Kumi Naidoo, hoje diretor da Greenpeace International, Bobby Peek, também laureado com o prémio Goldman em 1998, que viria a aconselhar Mandela em questões ambientais, e Nkosazana Dlamini-Zuma, ministra da Saúde de Mandela e hoje presidente da Comissão da União Africana.
D'Sa, antigo operário da indústria química e dirigente sindical, trabalhou com Peek para organizar as diversas comunidades do sul de Durban a fim de confrontar o governo e a indústria. Ajudou a desenvolver um «mapa de cheiros» para ajudar as pessoas a identificar a que produtos químicos tóxicos estavam expostas, formou pessoas para medir a poluição, levou empresas a tribunal e encerrou locais de resíduos perigosos. Em 20 anos de ativismo, D'Sa e o seu pequeno exército de voluntários locais obrigaram o governo a introduzir normas de poluição do ar e conseguiram que grande parte da indústria da zona passasse do petróleo para o gás.
Enfrentar as autoridades, porém, expô-lo a perigo pessoal. A sua casa foi alvo de cocktails Molotov lançados por desconhecidos e, devido a ameaças constantes, vive separado da sua família.
A maior ameaça, diz ele, é a planeada expansão do porto de Durban num empreendimento monstruoso capaz de movimentar 20 milhões de contentores por ano, quase 10 vezes mais do que hoje. Significaria que o sul de Durban se tornaria um estaleiro de construção durante décadas, com a devastação de vários bairros e um aumento inevitável da criminalidade, do contrabando, da prostituição e da poluição do ar.
«Vai trazer grandes estradas novas, armazéns, caminhos de ferro. Todo o espaço verde vai desaparecer. Não somos contra o desenvolvimento. Somos contra sermos arrasados por bulldozers», diz ele. «Pensávamos que éramos livres depois de Mandela chegar ao governo. Agora vemos o governo de Zuma a refugiar-se no nacionalismo e no conservadorismo. A injustiça ambiental encaixa-se em tudo isto. Prometem-nos empregos e melhor saúde. Mas as pessoas já não se deixam enganar.»



