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«Yasunizar» o mundo?

2 May 2013

THE AFRICA REPORT

Quando Svante Arrhenius, químico sueco e laureado com o Nobel, publicou os primeiros artigos sobre mudança climática em 1896, a concentração de dióxido de carbono na atmosfera era de 300 partes por milhão (ppm). Agora está chegando a 400 ppm e subindo 2 ppm por ano.

Arrhenius anunciou que, ao queimar o carvão encontrado no subsolo, os países industrializados liberavam cada vez mais dióxido de carbono na atmosfera e que isso elevaria as temperaturas. Ele não podia saber que, no século XX, a queima de carvão em todo o mundo aumentaria sete vezes, nem que, além do carvão, se somaria muito mais petróleo e gás natural; além dos efeitos do desmatamento.

O que acontece é que a nova vegetação e os oceanos não absorvem todo o dióxido de carbono produzido pela economia humana. Os combustíveis fósseis podem ser comparados à fotossíntese engarrafada de milhões de anos atrás. Nós os extraímos, os “desarrolhamos” e os queimamos rápido demais. O efeito estufa intensificado (assim chamado por Arrhenius) será cada vez mais rápido.

nas Ilhas Lofoten, na Noruega, está sendo proposto deixar o petróleo e o gás sob o leito marinho

Nesse sentido, a proposta de deixar parte do petróleo, do carvão e do gás sob a terra é claramente razoável. Precisamos reduzir pela metade o ritmo de extração de combustíveis fósseis. Essa proposta vem de lugares onde a extração de petróleo, carvão ou gás está causando grandes danos; por exemplo, a Amazônia do Equador e do Peru, ou o delta do Níger.

No México, o petróleo causou muitos danos ambientais em Tabasco e Campeche, e em 2010 a BP provocou um grande derramamento no Golfo do México. Mas há também desastres causados pela mineração de carvão na Colômbia, na China e na Índia, e pela extração de areias betuminosas no Canadá.

No Equador, no meio do mundo, a organização [I]Acción Ecológica[/I] propôs em 2006 deixar no solo 850 milhões de barris de petróleo dos poços ITT (Ishpingo, Tiputini, Tambococha) localizados no Parque Nacional [I]Yasuní[/I], na fronteira com o Peru. A proposta foi aceita pelo então Ministro de Energia e Minas, Alberto Acosta, e também endossada, com relutância, pelo Presidente Rafael Correa. No entanto, uma cláusula foi acrescentada.

O Equador faria um sacrifício financeiro para o seu próprio bem e o da humanidade, e abriria mão da extração do petróleo, que, se queimado, produziria 410 milhões de toneladas de dióxido de carbono, conservando assim a biodiversidade local única e respeitando os direitos indígenas.

O país solicitou uma contribuição estrangeira equivalente a cerca de metade do dinheiro que teria sido obtido, cerca de US$ 3,6 bilhões no total, pagos ao longo de um período de dez ou doze anos. Essas contribuições seriam depositadas num fundo fiduciário administrado conjuntamente com o PNUD, e constituído em 3 de agosto de 2010.

A oferta está em vigor, o dinheiro está chegando lentamente, mas o Presidente Correa ameaça com um Plano B para a extração de petróleo em alguns dos poços protegidos. Correa não é ambientalista, mas defendeu a proposta Yasuní em fóruns internacionais. Agora, porém, ameaça empurrar os limites do Parque Nacional [I]Yasuní[/I] em junho de 2013.

A ideia de deixar o petróleo sob a terra nasceu no delta do Níger. Alguns falam em “[I]ogonizar[/I]” em vez de “[I]yasunizar[/I]”, porque, depois de 1995 e da morte de Ken Saro-Wiwa, os Ogoni conseguiram expulsar a Shell por muitos anos.

Lá se diz: “deixem o petróleo no solo”. De outros lugares: “deixem o carvão no buraco”, “deixem o gás sob o capim”, lançando propostas semelhantes à do Equador. A tal ponto que a [I]Acción Ecológica[/I] escreveu à Real Academia da Língua Espanhola para incluir a palavra “yasunizar” no dicionário.

Na Guatemala, foi feita a proposta de não extrair petróleo da Laguna del Tigre, um sítio Ramsar no [I]Petén[/I] (uma zona úmida de importância internacional). Nas ilhas colombianas de [I]San Andrés[/I] e [I]Providencia[/I] (próximas à costa da Nicarágua), foi tomada oficialmente a decisão de deixar o petróleo sob a terra, de acordo com os protestos locais.

Na distante Nova Zelândia, quem se opõe à brutal mineração de linhito a céu aberto conhece a palavra “yasunizar”. O mesmo vale para o Quebec, a França, a Bulgária e o País Basco, onde, por ora, a extração de gás de xisto, que pode prejudicar o lençol freático, foi interrompida, com o argumento de que, se o petróleo do ITT Yasuní permanece no solo, por que outros lugares não podem seguir essa mesma doutrina?

Mesmo nas Ilhas Lofoten, na Noruega, está sendo proposto deixar o petróleo e o gás sob o leito marinho.

Há razões locais e globais para “yasunizar” o mundo.