Declaração de 2021 da Oilwatch Africa

Em 9 de agosto de 2021, a Oilwatch Africa realizou um webinar e uma Assembleia Geral Anual (AGM) virtual, coincidindo com a divulgação do relatório sobre o estado atual do clima, incluindo como ele está mudando e o papel da influência humana, pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). A AGM, composta por organizações, redes e grupos de resistência comunitária da África e do mundo todo, deliberou sobre os alarmantes impactos climáticos que o continente enfrenta. Entre eles estão inundações, secas que causam desertificação, perda de habitats e espécies essenciais, redução da produtividade da terra e acesso limitado à água, bem como as formas de enfrentar esses impactos. Há décadas, a Oilwatch Africa está na linha de frente do monitoramento desses impactos, especialmente no contexto da extração que os provoca, e da dependência global colonial da energia suja e da política comprador que a sustenta e a agrava.
O webinar, com o tema “O nexo entre justiça climática e justiça socioeconômica; como isso se apresenta para a África?” explorou as injustiças históricas provocadas pela crise climática e as estratégias para enfrentar os impactos conhecidos e emergentes da mudança climática. Os participantes do webinar também examinaram estruturas para responder à contínua expansão da extração de petróleo, gás e carvão. Alguns dos destaques das discussões incluem:
- As injustiças socioeconômicas favorecem a eliminação dos bens comuns e rompem as relações sociais com a terra.
- O colonialismo promoveu um extrativismo de exploração e desarticulou os caminhos de desenvolvimento africanos ancorados em uma forte conexão com os ecossistemas.
- A ruptura do sistema pode ser melhor alcançada por meio de processos de democratização conduzidos pelos povos, com plena inclusão social e de gênero.
- A África precisa de uma visão clara da transição justa e é preciso compreender que, como haverá significados e realidades diferentes, deve-se adotar uma abordagem descentralizada que não comprometa os sistemas de sustentação do planeta.
- A busca por energia alternativa não deve se basear na extração irresponsável dos recursos do continente. É preciso reimaginar um novo sistema energético para substituir o atual.
- Enfrentar a mudança climática deve ir além da transição energética e incluir a promoção da agroecologia e da soberania alimentar.
- As pessoas mais afetadas pelos impactos da mudança climática são as que menos contribuíram para provocar a catástrofe.
- Deve-se adotar, com o Norte global, um marco econômico que busque saldar a dívida ecológica no continente.
- A transição é inevitável; no entanto, ela pode acontecer sem justiça. Todas as partes interessadas devem, portanto, garantir que a transição não apenas aconteça, mas que seja justa.
As discussões culminaram na seguinte declaração, apoiada pelos presentes; a ASSEMBLEIA:
OBSERVANDO COM PREOCUPAÇÃO os impactos devastadores, locais, regionais e globais, da mudança climática, que afetam de forma desproporcional as comunidades locais, os povos indígenas, as mulheres e a juventude;
OBSERVANDO AINDA COM preocupação a desconexão entre as realidades climáticas e as chamadas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs);
A OILWATCH AFRICA RESSALTA a necessidade de as nações poluidoras reduzirem drasticamente as emissões na fonte;
PORTANTO, ELA
CONDENA a proliferação contínua e deliberada de carvão, petróleo e gás na África, devido a seus impactos debilitantes sobre o clima, os meios de subsistência, a saúde pública e o meio ambiente;
E APELA
- Os governos africanos a promover e acelerar o processo de transição justa, com uma clara compreensão das implicações de classe do acesso, da propriedade e do controle dos sistemas energéticos.
- Os governos africanos a reconhecer que o nexo do colonialismo, na medida em que envolve o processo de extração de recursos por toda a África há séculos, deve ser interrompido, e que os líderes devem se libertar da dependência das estruturas de poder neocoloniais.
- A uma reforma abrangente dos sistemas socioeconômicos defeituosos para eliminar as desigualdades e construir uma África onde reinem a justiça, a equidade e a igualdade. A Oilwatch Africa vê os recentes distúrbios em South Africa e Swaziland e os conflitos violentos em Mozambique e Nigeria como sintomas de defeitos sistêmicos subjacentes mais amplos no continente.
- Os líderes africanos a cessar ou interromper todas as formas de extração de combustíveis fósseis e a exploração de novas jazidas na África.
- A interrupção da busca por recursos petrolíferos na Bacia do Okavango e nas bacias de fronteira na Nigeria
- As instituições financeiras multilaterais: a parar de financiar a infraestrutura, a extração e os processos de exploração de combustíveis fósseis por toda a África.
- A comunidade internacional: a pôr fim à contínua dependência dos combustíveis fósseis. O relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) mostra a situação terrível que a África enfrenta, com perspectivas maiores de secas, ciclones, ondas de calor, inundações e outras catástrofes relacionadas. A Oilwatch Africa observa a injustiça intrínseca para o continente em uma crise para a qual não contribuiu.
- Os territórios e as nações: a manter todos os fósseis no solo. A Oilwatch Africa rejeita a proposta do IPCC de remoção de carbono e os cenários de zero líquido (Net-Zero) como meio de enfrentar a mudança climática.
- Os governos africanos a garantir que a extração de minerais para equipamentos de energia renovável não dê início a um novo ciclo de exploração, espoliação e desapropriação na África.
- Os governos africanos a investir na agroecologia, na soberania alimentar e na democracia das sementes, a promovê-las, e a apoiar nossos pequenos agricultores, pescadores e pastores que produzem a maior parte de nossos alimentos.
- As corporações transnacionais/multinacionais e os governos africanos a parar de criminalizar os defensores dos direitos dos povos e do meio ambiente. O espaço cívico está continuamente encolhendo por meio de todas as formas de intimidação, especialmente o sequestro, a prisão e o assassinato de ativistas que defendem os direitos ambientais e os direitos dos povos em meio a projetos de extração de carvão, petróleo e gás.
Adotado em 9 de agosto de 2021 pelos membros e organizações da Oilwatch Africa:
- Bénin
- Cameroon
- Côte d’Ivoire
- Democratic Republic of Congo
- Ghana
- Kenya
- Mali
- Mozambique
- Nigeria
- South Africa
- South Sudan
- Sudan
- Swaziland/Eswatini
- Tchad
- Togo
Organizações/Redes
- FishNet Alliance
- Green Alliance Nigeria
- Host Communities Network, Nigeria
- North Africa Environmental Justice Network
- Environmental Rights Action/Friends of the Earth Nigeria
- Kebetkache Women Development Centre
- Zambia Climate Change Network (ZCCN)



