Os BRICS para sustentar o sistema baseado no petróleo

Durban, 26 de março de 2013
A Oilwatch International observa que a formação económica e política conhecida pela sigla BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) nasceu de uma ideia da Goldman Sachs para descrever os principais mercados emergentes. É fácil interpretá-la como um agrupamento concebido não no interesse dos povos ou da terra, mas em prol da acumulação de capital para o 1 % e da espoliação dos 99 %, sustentado por um sistema de extração e consumo contínuos de combustíveis fósseis.
O mundo viu-se assim sobrecarregado com mais um coletivo multilateral arbitrário e artificial, à semelhança do G8, do G20 e de qualquer outro « G » que se possa inventar amanhã. Em geral, tais agrupamentos têm o papel de subverter os processos multilaterais formais, onde ainda subsistem algumas possibilidades de decisão democrática. Blocos como os BRICS são como clubes de velhos companheiros, conferindo aos seus membros um sentido de exclusividade e incitando-os a trabalhar pelo interesse coletivo dos poderosos, em detrimento dos demais. Quando os BRICS deram, coletivamente, 75 mil milhões de dólares ao FMI em 2012, não foram a Europa nem os Estados Unidos que perderam poder de voto, mas sim a África. Quando os BRICS (à exceção da Rússia) assinaram o « Acordo de Copenhaga » com Washington em 2009, esse negócio duvidoso confirmou que as economias viciadas em combustíveis fósseis podiam continuar a poluir sem restrições, enquanto o resto da África é cozinhado pelas alterações climáticas.
Os governos dos BRICS fingem enfrentar as forças neocoloniais e imperiais. Sugerem também que as empresas dos seus países se comparam favoravelmente às do Norte global. Estas afirmações têm pouco fundamento na realidade. As tristemente célebres empresas de energia, petróleo e outros combustíveis fósseis dos BRICS (sejam privadas ou estatais) entregam-se, com impunidade, às mesmas práticas condenáveis das transnacionais estrangeiras dos mesmos setores. Fomentam a repressão, impulsionam a destruição ambiental e prejudicam os meios de subsistência das populações locais.
A Petrobras do Brasil, a Gazprom e a Lukoil da Rússia, a CoalIndia Ltd. da Índia, a CNPC e a Sinopec da China e a Sasol da África do Sul, entre outras, estão todas a estender o seu alcance para o interior dos seus continentes e para além deles, aproveitando o papel de cada país como hegemón regional.
Dada a definição dos BRICS como um agrupamento de « mercados » e não de sociedades, não surpreende a forma como são reduzidos aos seus produtos. Como escreve a analista russa Anna Ochkina para as coligações « brics-from-below » de Durban: « O Brasil é essencial para o abastecimento agrícola, a China fornece mão de obra barata, a Índia fornece mão de obra intelectual barata para as indústrias de alta tecnologia, a África do Sul fornece minerais e a Rússia fornece minerais, petróleo e gás. A escala e as condições de fornecimento destes recursos ao capital global tornam os países dos BRICS essenciais para o sistema atual » [1].
Enquanto os BRICS se apresentam como benfeitores dos territórios que planeiam repartir economicamente, os seus próprios povos têm de suportar graves violações dos direitos socioeconómicos, políticos e civis. Vivem com desigualdades acentuadas, falta de infraestruturas adequadas, níveis crescentes de violência e outros sintomas de um desenvolvimento orientado não para as pessoas, mas para o lucro dos governos e das empresas [2].
A Oilwatch entende que agrupamentos deste género procuram repartir o mundo em vários mercados e esferas de influência, e apoiar-se mutuamente enquanto se intrometem nos assuntos das nações que exploram e oprimem. Blocos como os BRICS são cunhas para fragmentar outros espaços mais democráticos, corroer a solidariedade e promover interesses de mercado estreitos.
A cimeira dos BRICS desta semana na África do Sul será um campo de batalha decisivo, tanto para as forças emergentes como para as já imperiais. Como a maior economia do continente africano, a África do Sul concluiu que não podia ficar a assistir enquanto aquilo que era o BRIC iniciava uma segunda corrida por África, sem tentar agarrar uma fatia do bolo para si. E assim a África do Sul forçou a sua entrada na disputa e o BRIC adquiriu um « S ».
Os minerais e outros recursos de África têm sido, ao longo dos séculos, objeto de desejo de saqueadores e aventureiros de toda a espécie. Ultimamente, o açambarcamento de terras veio somar-se à apropriação dos demais recursos africanos. Através destes açambarcamentos, os BRICS e blocos semelhantes procuram consolidar agendas neoliberais já fracassadas, bem como uma civilização já obsoleta, movida por combustíveis fósseis e energia suja. Os BRICS não parecem perceber que o destino da sua corrida sobre as rodas de mercados impulsionados por investimentos sujos e pelo açambarcamento de recursos é um muro de tijolos. Ou soldados mortos em busca dos interesses minerais dos seus líderes (como os infelizes sul-africanos na República Centro-Africana, precisamente quando os BRICS iniciam a sua cimeira de Durban).
O agrupamento de nações em blocos por mercadorias e por operadores financeiros como a Goldman Sachs deve figurar entre as mais flagrantes subversões dos direitos coletivos dos povos na atualidade. A situação apenas será agravada pela provável influência da Goldman Sachs sobre o Banco dos BRICS proposto numa recente reunião realizada em março na África do Sul. Um alto responsável da Goldman Sachs em Joanesburgo é o antigo governador do Banco de Reserva da África do Sul, e Pretória solicitou acolher o novo Banco dos BRICS, o que, segundo consta, Pequim apoia.
Um tal Banco dos BRICS só poderia agravar o caos social, económico e ambiental já causado, em parte, pelo financiamento multilateral. As instituições de financiamento do desenvolvimento já existentes nos países dos BRICS, como o Development Bank of Southern Africa, na África do Sul, ou o BNDES, o banco de desenvolvimento brasileiro, oferecem lições que fazem refletir. Os fracassos espetaculares da Goldman Sachs, bem como os de outras empresas de Wall Street que detêm enormes stocks de mercadorias físicas, como tanques de armazenamento de petróleo, armazéns de metais e centrais elétricas [3], deveriam constituir fortes sinais de que os seus sonhos e desejos têm de ser repudiados e rejeitados.
A Oilwatch International denuncia a engenhoca chamada BRICS e todos os outros agrupamentos criados para impor agendas divisivas e exploratórias por todo o mundo. Acreditamos que chegou o momento de os povos dos países reunidos em grupos como os BRICS, o G8 e o G20 exigirem dos seus líderes eleitos que rejeitem esses blocos nefastos que destroem os espaços multilaterais formais e mergulham o mundo na violência e em crises cada vez mais profundas, como o demonstram o agravamento das alterações climáticas e as crises financeira, económica e alimentar.
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OILWATCH INTERNATIONAL
www.oilwatch.org
NOTAS:
[1] ccs.ukzn.ac.za
[2] Friends of the Earth South Africa. 20 de março de 2013. Brics-from-below summit: Watching and challenging power! http://www.foei.org/en/blog/friends-of-the-earth-south-africa-brics-from-below-summit-watching-and-challenging-power
[3] CNBC. 11 de março de 2013. Goldman Leads Decline as Wall Street Commodity Revenues Plummet http://www.cnbc.com/id/100541469



