AfricaNews

Africanos unem-se contra uma nova forma de colonialismo

31 Mar 2013

Environmental Rights Action

Indignados com os generalizados açambarcamentos de terras e o neocolonialismo da REDD (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação florestal), africanos reunidos no Fórum Social Mundial na Tunísia tomaram a decisão histórica de lançar a Rede No REDD in Africa e juntar-se ao movimento global contra a REDD.

A REDD+ é um mecanismo de compensação de carbono através do qual os países industrializados do Norte usam as florestas, a agricultura, os solos e até a água como esponjas para a sua poluição, em vez de reduzir as emissões de gases com efeito de estufa na origem. «A REDD já não é apenas uma falsa solução, mas uma nova forma de colonialismo», denunciou Nnimmo Bassey, laureado com o Prémio Nobel alternativo e antigo diretor executivo da ERA/Friends of the Earth Nigeria. «Em África, a REDD+ surge como uma nova forma de colonialismo, de subjugação económica e um motor de açambarcamentos de terras tão massivos que podem constituir o açambarcamento de um continente inteiro. Lançamos a Rede No REDD in Africa para defender o continente do colonialismo do carbono.»

No Documento-Quadro da ONU-REDD, as próprias Nações Unidas admitem que a REDD poderia resultar no «bloqueio das florestas», na «perda de terras» e em «novos riscos para os pobres». Inicialmente, a REDD abrangia apenas as florestas, mas o seu âmbito foi alargado para incluir os solos e a agricultura. Numa sessão de formação ontem no Fórum Social Mundial de Tunes, membros da La Via Campesina, o maior movimento camponês do mundo, manifestaram preocupação de que os projetos REDD em África ameacem a segurança alimentar e possam acabar por causar fome.

Um estudo recente da Via Campesina sobre o projeto REDD de N'hambita, em Moçambique, concluiu que milhares de agricultores receberam quantias irrisórias durante sete anos para cuidar de árvores, mas que, sendo o contrato de 99 anos, se o agricultor morrer, os seus filhos e os filhos destes terão de cuidar das árvores gratuitamente. «Isto constitui escravidão do carbono», denunciou a nascente Rede No REDD in Africa. O projeto N'hambita foi celebrado pela ONU no site da Rio+20, a Cimeira da Terra realizada no Rio de Janeiro no ano passado.

Mercia Andrews, da Assembleia de Mulheres Rurais da África Austral, apelou: «Nós, africanos, precisamos de ir além do problema da REDD para forjar uma solução. A última coisa de que a África precisa é de uma nova forma de colonialismo.» Africanos da Nigéria, África do Sul, Mali, Níger, Senegal, Moçambique, Tunísia, República Democrática do Congo, Quénia e Tanzânia participaram no lançamento da Rede No REDD in Africa. Segundo o The New York Times, mais de 22.000 agricultores com títulos de terra foram violentamente expulsos para um projeto do tipo REDD no Uganda em 2011, e Friday Mukamperezida, um menino de oito anos, foi morto quando a sua casa foi reduzida a cinzas.

Os projetos de REDD e de florestas de carbono estão a resultar em expulsões massivas, servidão, escravidão, perseguições, mortes e prisões, segundo a nascente Rede No REDD in Africa. «A Aliança Global dos Povos Indígenas e Comunidades Locais sobre Mudanças Climáticas contra a REDD e pela Vida saúda o nascimento da Rede No REDD in Africa. Isto sinaliza uma resistência crescente contra a REDD em todo o mundo», declarou Tom Goldtooth, diretor da Indigenous Environmental Network. «Sabemos que a REDD poderia causar genocídio e estamos felizes por os africanos estarem a tomar posição para travar aquilo que poderia ser o maior açambarcamento de terras de todos os tempos.»